Em qual contexto surgem os primeiros educadores de surdos

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O Fique por Dentro desta semana mostra algumas personalidades surdas e ouvintes que fizeram história e conta um pouco a história dos surdos.

Trajetória das pessoas surdas: pessoas que ajudaram a escrever essa história

A história dos surdos é fascinante.  Entre exclusão, conquistas, retrocessos e reconquistas, se entrelaça à abordagem acerca das línguas de sinais e é escrita por muitas pessoas que contribuíram para a educação e formação das pessoas surdas.  Alguns pensam que só ouvintes agiram nesse processo e os surdos apenas reagiram a iniciativas. Engano! Os próprios surdos têm mostrado seu protagonismo, revelado suas habilidades e escrito sua história ao longo dos anos.

O Fique por Dentro desta semana mostra algumas personalidades surdas e ouvintes que fizeram história e conta um pouco a história dos surdos.

Pessoas surdas que fizeram história

Por muitos séculos, os surdos foram privados de educação e de vários outros direitos, mas no século XVIII aconteceram transformações profundas a partir do uso das línguas de sinais como línguas de instrução para os surdos, trazendo grandes saltos qualitativos para a sua educação e qualidade de vida. De pessoas às quais a sociedade antes considerara desprovidas da faculdade da razão, os surdos passaram a aprender com eficiência e a exercer papéis antes não imaginados para eles. Surgiram obras escritas por surdos, como as Observations de Pierre Desloges, publicada em 1779. Formaram-se engenheiros surdos, professores surdos, filósofos surdos, intelectuais surdos, líderes e militantes das comunidades surdos. Nessa época, muitas das escolas para surdos que iam sendo criadas tinham professores surdos e eram dirigidas por surdos. Os surdos também fundavam outras escolas em vários lugares do mundo.

Dentre as personalidades surdas desse período, destacam-se:

  • Laurente Clerc: professor surdo do Instituto Nacional de Jovens Surdos-mudos* de  Paris, fundado por Michael Charles de L’Epée, ensinou língua de sinais a Thomas Gallaudet. Ambos fundaram a primeira escola para surdos nos Estados Unidos.
  • Ernest Huet: professor em Paris, veio ao Brasil em 1855, visando fundar aqui uma escola para surdos. Com o apoio de D. Pedro II, fundou e dirigiu por cinco anos o Imperial Instituto de Surdos-Mudos, atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). O Instituto foi fundado no Rio de Janeiro, em 26 de setembro de 1857.
  • Ferdinand Berthier: Escreveu vários livros e artigos, sendo sua obra de mais notoriedade a biografia “Um surdo antes e depois do Abade L’Epée”. Foi defensor do povo surdo**, da cultura surda, da língua de sinais. Estudou no Instituto de Jovens Surdos-Mudos de Paris, onde foi professor. A base de sua prática de ensino era a identidade surda e a língua de sinais. Junto a outros companheiros surdos, criou um comitê de surdos e a primeira associação para surdos, semente para o surgimento das outras associações.
  • Pierre Pelissier: professor, poeta, membro ativo da Sociedade Central de Educação de Assistência aos Surdos Mudos. Elaborou a Iconografia de Sinais (um manual de sinais), posteriormente reproduzido pelo surdo brasileiro Flausino de Gama.

Infelizmente, os relatos da comunidade surda não parecem ter sido registrados em tão grande volume como aconteceu com as personalidades ouvintes, mas encorajamos o leitor a pesquisar em outras fontes, como na produção da professora e pesquisadora surda Karin Strobel. Um dos materiais da professora Karin é referência para esta postagem.

Voltando um pouco: a história anterior do povo surdo

Nem sempre os surdos foram tratados de forma humana. Strobel mostra que na Idade Antiga os surdos eram adorados no Egito e na Pérsia, pois se acreditava que eles se comunicavam com os deuses, mas na Grécia e em Roma, eles eram assassinados e os que escapavam eram escravizados. Na Idade Média, eram tidos como objeto de curiosidade, como seres estranhos. Não podiam participar dos sacramentos religiosos, não tinham direito de casar, de receber herança, etc. Alguns eram assassinados pelas próprias famílias. Isso começa a mudar na Idade Moderna. O médico e filósofo Girolomo Cardamo concluiu que os surdos tinham habilidade para a razão e podiam aprender. Ele se comunicava com os surdos por meio de sinais e da escrita. Nesse período, famílias nobres começaram a prover as condições para a educação dos filhos surdos, preocupadas com o que aconteceria com suas heranças. Assim, esses filhos eram ensinados a falar e a ler para que pudessem receber os títulos e a herança. A partir daí, surgiram diversos educadores de surdos.

Alguns educadores de surdos que ganharam notoriedade

Como mostra Strobel, Berthier argumentava que houve várias iniciativas de educação de surdos, mais ou menos eficazes, que não tiveram notoriedade. Alguns dos educadores mais citados na história dos surdos são:

  • Pedro Ponce de León (1510-1584): o monge beneditino Ponce de León ensinava a escrita, a datilologia e a oralização. Fundou a primeira escola para surdos em um monastério de Valladolid.
  • Juan Pablo Bonet (1579-1623): o padre espanhol Bonet trabalhava com treinamento da fala, datilologia e sinais e lançou o primeiro livro sobre a educação de surdos em 1620. Strobel mostra que Berthier contesta frontalmente a ideia de que Bonet teria descoberto como ensinar o surdo a falar e que esse feito poderia bem ser creditado a Ramires de Carrion, rival de Bonet e surdo congênito, que teria tido sucesso em um experimento e lançado também um livro a respeito em 1629.
  • Charles Michael de L’Epée (1712-1789): um dos nomes mais destacados nas fontes consultadas, o Abade de L’Epée conheceu duas irmãs gêmeas surdas cuja comunicação ocorria por meio de gestos. Trabalhou com os surdos pobres andarilhos das ruas de Paris, observou, aprendeu e valorizou a comunicação sinalizada utilizada por eles. L’Epée percebeu que os sinais permitiam a comunicação com os surdos e favorecia à sua aprendizagem. Criou o alfabeto manual francês e o uniu aos sinais usados pelos surdos, de maneira que liam e escreviam em francês através da ajuda de um intérprete. Na sua casa, com recursos próprios, criou a primeira escola de surdos, que em 1791 se tornou o Institute of DeafMutes, Instituto Nacional de Surdos-mudos, a primeira escola pública para surdos. O método de L’Epée, que utilizava a língua de sinais como língua de instrução, mostrou-se muito eficaz e se espalhou pelo mundo, pois a escola recebia pessoas do mundo inteiro e os discípulos de de L’Epée, inclusive professores surdos, multiplicavam o método e implantavam escolas em vários lugares. À época da morte de de L’Epée, em 1789, já havia cerca de 21 escolas para surdos na França e na Europa.
  • Thomas Opkins Gallaudet (1787-1851): com o desejo de fundar uma escola para surdos nos Estados Unidos, o reverendo americano Gallaudet foi à Europa em 1816 para buscar informações e na França conheceu Laurent Clerc. Ambos foram juntos aos Estados Unidos. Clerc ensinou a língua de sinais a Gallaudet e este lhe ensinou o inglês. Em 1817, os dois fundaram a primeira escola para surdos nos Estados Unidos, cuja língua de instrução era a língua de sinais. A partir de então, as escolas para surdos que adotavam a língua de sinais se expandiram nos EUA e a maioria dos professores de surdos eram usuários de língua de sinais, sendo muitos deles também surdos. Em 1864, Edward Gallaudet, filho de Thomas, fundou a primeira Universidade Nacional para Surdos, em Washington, a Universidade Gallaudet, referência mundial no ensino de surdos em nível superior e a primeira que tinha como língua de instrução a língua de sinais.

A continuidade no protagonismo das pessoas surdas

Os surdos seguem exercendo seu protagonismo e usando seus talentos. Continuam surgindo artistas, professores, intelectuais, escritores surdos. Alguns exemplos no século XX são:

  • Antônio Pitanga: escultor pernambucano surdo, formado pela Escola de Belas Artes, ganhou os prêmios Medalha de Prata, com a escultura “Menino Sorrindo”, Medalha de Ouro, com a escultura “Ícaro”, e viagem à Europa, com a escultura “Paraguaçu”, em 1932.
  • Jorge Sérgio Guimarães: publicou, em 1951, no Rio de Janeiro, o livro de crônicas “Até Onde vai o Surdo”, em que narra suas experiências como surdo.
  • Marlee Matlin: primeira atriz surda a conquistar o Oscar de melhor atriz, pela atuação no filme Filhos do Silêncio, de 1986.

Hoje, há muitos surdos produzindo e pesquisando sobre o povo surdo e a cultura surda. Dentre estes mencionamos as professoras e pesquisadoras Gladis Perlin (UFSC) e a própria Karin Strobel (UFSC). Vá adiante, conheça as pessoas surdas e conheça mais sobre elas!

*A expressão “surdo-mudo” era usada na época, mas já caiu em desuso. Veja o texto sobre nomenclaturas.

**Para compreender melhor o conceito de povo surdo, leia os textos de Strobel e Peixoto. Links abaixo.

Saiba mais:

A surdez consiste na ausência total ou parcial de sons, decorrente de problemas auditivos. As primeiras referências aos surdos são encontradas na Lei Hebraica, na época do povo Hebreu.

A deficiência auditiva na Grécia

No Egito, os surdos eram adorados, como se fossem deuses, serviam de mediadores entre os deuses e os faraós, sendo temidos e respeitados pela população. Na Antiguidade, alguns povos os lançavam ao mar ou em penhascos.

Na Grécia, os surdos eram tratados como seres incompetentes e que por não possuírem uma linguagem, não eram capazes de raciocinar. Assim, não tinham direitos, eram marginalizados e muitas vezes condenados à morte.

Sócrates, em 360 a.C., declarou que era aceitável os surdos se comunicarem com as mãos e o corpo. Os Romanos, influenciados pelo povo grego, também viam os surdos como seres imperfeitos e os excluía da sociedade. Mais tarde, Santo Agostinho defendia a ideia de que os pais de filhos surdos pagavam por algum pecado que haviam cometido. Acreditava que os surdos podiam comunicar por meio de gestos, que, em equivalência à fala, eram aceitos para a salvação da alma.

John Beverley, em 700 d.C., foi o primeiro a ensinar uma pessoa surda a falar (em que há registro). Por essa razão, ele foi considerado por muitos como o primeiro educador de surdos. Foi na Idade Moderna que se distinguiu, pela primeira vez, surdez de mudez. A expressão “surdo-mudo” deixou de ser a designação do Surdo.

Entretanto, foi o monge beneditino espanhol Pedro Ponce de León que recebeu créditos como o primeiro professor para surdos ao desenvolver um alfabeto manual, que ajudava os surdos a soletrar as palavras.

Juan Pablo Bonet, padre espanhol, deu continuidade ao trabalho de León, ensinando os surdos a lerem e a falarem, utilizando outra metodologia, o método oral. Já, John Bulwer, médico britânico, publicou vários livros defendendo o uso de gestos entre os surdos. Nesse sentido, John Wallis (1616 a 1703) desistiu de ensinar os surdos a oralidade, dedicou-se somente a ensiná-los a escrever usando gestos.

A criação do Instituto Nacional de Surdos-Mudos

O primeiro Instituto Nacional de Surdos-Mudos foi criado em Paris, por Charles Michel de L’Épée, nascido em 1712. Este instituto reconhecia a pessoa surda como um ser que tem a sua própria língua.

Na Idade Contemporânea, Pierre Desloges publicou o primeiro livro escrito por um surdo. Ele se tornou surdo ao adquirir varíola aos sete anos, aprendendo a comunicar-se apenas por gestos. Em 1880, com a realização da Convenção Internacional de Milão, os educadores presentes determinaram a supremacia dos métodos orais puros. Sendo assim, qualquer forma de comunicação sem ser oral era proibida, sendo esses surdos rejeitados.

A história dos surdos no Brasil

No Brasil, uma língua nacional de sinais passou a ser difundida a partir do segundo império. O educador francês Hernest Huet era surdo e foi o introdutor dessa metodologia aqui no Brasil. Ele fundou o Imperial Instituto Nacional de Surdos-Mudos, por meio da Lei nº 839, de 26 de setembro de 1857, no Rio de Janeiro, com apoio do imperador

D. Pedro II. Este Instituto tratava crianças surdas somente do sexo masculino. Um século após sua fundação, por meio da Lei nº 3.198, de 6 de julho, a instituição tornar-se-ia o Instituto Nacional de Educação dos Surdos (INES), que inicialmente utilizava a língua dos sinais, mas que em 1911 passou a adotar o oralismo puro. (O oralismo puro consiste em efetivar a comunicação por meio do entendimento dos movimentos normais dos lábios (lábios-leitura, leitura labial e leitura orofacial).

O século XX assistiu, até a década de 60, uma abordagem quase exclusivamente oralista entre as escolas de surdos e nesta década estudos demonstraram insuficiente eficácia destes métodos no desenvolvimento linguístico e cognitivo da pessoa surda. Nos anos 50, uma série de inovações aconteceu em benefício à surdez.

Surgiram, por exemplo, as primeiras escolas normais e jardins de infância para crianças surdas. Após esse período começou um movimento pelo resgate da língua de sinais, de forma bimodal (dois modos de linguagens), como uma fala de instrução, por meio da Filosofia da Comunicação Total (fazer uso simultâneo da língua de sinais e da língua oral). Fontes retiradas: A história da Educação do surdo. (Professor Isaías Leão).

Em 1970, já havia tratamento para bebês surdos. Já em 1980, o INES intensificou o trabalho de pesquisas sobre a Língua Brasileira de Sinais e sobre a educação de surdos, criando o primeiro curso de especialização para professores na área da surdez. O Bilinguismo passou então a ser difundido.

A reivindicação dos direitos nos anos 80

Nos anos 80 e 90 teve início um movimento reivindicatório dentro da comunidade surda, advogando a primazia da língua de sinais na educação dos surdos, concomitante com o aprendizado da linguagem oral de forma diglossia (duas línguas independentes, ensinadas ou praticadas em momentos distintos).

Atualmente, o INES é um centro de referência com atendimento diversificado para atender os surdos no Brasil.

Outros nomes importantes para a história dos surdos nacional e internacionalmente são:

  • Alexandre Graham Bell – cientista defendia a oralização dos surdos;
  • Edward Miner Gallaudet – filho de Thomas Gallaudet – educador de surdos;
  • Fernando César Capovilla, Walkiria Duarte Raphael criaram o alfabeto e os numerais em Libras;
  • Hellen Keller – cega e surda aos sete anos, sufragista, pacifista e apoiante do planejamento familiar e entre outros;
  • Jacob Rodrigues Pereira – defendia a oralização dos surdos;
  • Jean Itarde – primeiro médico interessado pela surdez;
  • Jean Massieu – um dos primeiros educadores de surdos;
  • Laurent Clerc – surdo educador acompanhado por Thomas Gallaudet;
  • Roch-Ambroise Cucurren Sicard – instrutor de surdos, apoiou a criação de vários institutos de surdos na França;
  • Ronice M. Quadros e Nelson Pimenta – elaboraram 61 configurações de mãos;
  • Samuel Heínicke – ensinou vários surdos a adquirir a língua oral;
  • Thomas Braidwood – fundou uma escola de surdos na Europa;
  • Thomas Hapkins Gallaudet – educador ouvinte, responsável por abrir uma escola para surdos em 1817 nos Estados Unidos da América e criar a Língua Gestual Americana.

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